{"id":217,"date":"2018-10-19T18:19:55","date_gmt":"2018-10-19T17:19:55","guid":{"rendered":"https:\/\/skasd.net\/?p=217"},"modified":"2018-10-20T17:26:24","modified_gmt":"2018-10-20T16:26:24","slug":"alexsandro-potiguara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/skasd.net\/pt-br\/2018\/10\/19\/alexsandro-potiguara\/","title":{"rendered":"Alexsandro Potiguara"},"content":{"rendered":"<p>Saudades<\/p>\n<p>Sempre que retorno \u00e0 aldeia tenho uma imensa saudade e vontade de experimentar novamente tudo que vivi na inf\u00e2ncia. Para que voc\u00ea possa entender esse desejo irei lhe contar um pouquinho da minha hist\u00f3ria com a M\u00e3e Terra.<\/p>\n<p>Ao tomar consci\u00eancia de minha exist\u00eancia, percebi que morava numa cidade chamada Mamanguape, que fica ao norte do estado da Para\u00edba. Lembro-me que em cause todos os finais de semana ia visitar minha av\u00f3 na reserva ind\u00edgena. Por que eu morava na cidade em vez de viver na aldeia com ela? Porque minha m\u00e3e, que \u00e9 ind\u00edgena, casou-se com meu pai, que n\u00e3o \u00e9. Os detalhes dessa hist\u00f3ria voc\u00ea pode encontrar no livro \u201cMem\u00f3rias do Movimento Ind\u00edgena do Nordeste\u201d, que tamb\u00e9m faz parte da cole\u00e7\u00e3o \u201c\u00cdndio na vis\u00e3o dos \u00cdndios\u201d.<\/p>\n<p>Uma das melhores partes das visitas \u00e0 aldeia era ver meus parentes e juntos com meus irm\u00e3os, primos e primas nadar no rio. Ainda n\u00e3o t\u00ednhamos a mal\u00edcia da sensualidade no cora\u00e7\u00e3o, por isso, nad\u00e1vamos desnudos, sem o pudor criado e imposto pela igreja \u00e0s diferentes culturas. Est\u00e1vamos apenas aproveitando a inf\u00e2ncia, a liberdade, desfrutando o melhor da vida.<\/p>\n<p>Uma de nossas brincadeiras favoritas ocorria na \u00e9poca da colheita da manga. Peg\u00e1vamos uma bacia e a ench\u00edamos com a fruta. Carreg\u00e1vamos a bacia at\u00e9 o rio e jog\u00e1vamos todas as mangas dentro dele, em seguida, ca\u00e7\u00e1vamos as mangas e degust\u00e1vamos a fruta l\u00e1 dentro do rio mesmo, enquanto brinc\u00e1vamos de pega a pega dentro da \u00e1gua.<\/p>\n<p>Ao sair do rio, minha av\u00f3 nos chamava para almo\u00e7ar. Sempre tinha um peixe fresquinho para misturar com feij\u00e3o e farinha. Farinha produzida na pr\u00f3pria aldeia e peixe pescado no rio ou no mar, que fica a uns 15 km de dist\u00e2ncia da aldeia. Depois do almo\u00e7o, alguns continuavam a brincar e outros tiravam um cochilo.<\/p>\n<p>A noite era uma maravilha! Pois a energia el\u00e9trica ainda n\u00e3o havia chego, ent\u00e3o, olh\u00e1vamos mais para o c\u00e9u e contempl\u00e1vamos uma imensa escurid\u00e3o acompanhada de v\u00e1rios pontos reluzentes. As hist\u00f3rias ganhavam maior realidade dentro da nossa imagina\u00e7\u00e3o, principalmente as que envolviam assombra\u00e7\u00f5es. Mitos e ritos que ficavam na nossa mente e nos levavam a um sono profundo e, \u00e0s vezes, reviv\u00edamos essas hist\u00f3rias no mundo paralelo; no mundo do descanso, mundo que, muitas vezes, mostra uma realidade que n\u00e3o enxergamos e nos avisa sobre o que est\u00e1 por vir e como prevenir-se de alguns males.<\/p>\n<p>No ano passado (2017) minha av\u00f3 fez a passagem \u2013 voc\u00ea pode conhecer um pouquinho da hist\u00f3ria dela no livro \u201cMem\u00f3ria da M\u00e3e Terra\u201d. E neste ano, quando voltei para a aldeia, ao mesmo tempo em que senti sua falta tamb\u00e9m n\u00e3o senti, pois, por mais que ela n\u00e3o estivesse ali em corpo presente, senti um bem-estar ao perceber que ela ainda continua l\u00e1.<\/p>\n<p><em>\u201cA hist\u00f3ria continua, se n\u00e3o for neste ser\u00e1 em outro livro, mas ela nunca ter\u00e1 fim\u201d<\/em><\/p>\n<p>Alexsandro Potiguara<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Saudades Sempre que retorno \u00e0 aldeia tenho uma imensa saudade e vontade de experimentar novamente tudo que vivi na inf\u00e2ncia. Para que voc\u00ea possa entender esse desejo irei lhe contar um pouquinho da minha hist\u00f3ria com a M\u00e3e Terra. 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