{"id":219,"date":"2018-10-20T14:51:12","date_gmt":"2018-10-20T13:51:12","guid":{"rendered":"https:\/\/skasd.net\/?p=219"},"modified":"2018-10-20T15:44:24","modified_gmt":"2018-10-20T14:44:24","slug":"gustavo-caboco-wapichana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/skasd.net\/pt-br\/2018\/10\/20\/gustavo-caboco-wapichana\/","title":{"rendered":"Gustavo Caboco Wapichana"},"content":{"rendered":"<p>Povo Wapichana &#8211; Roraima<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-223\" src=\"https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/caboco-205x300.jpg\" alt=\"\" width=\"205\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/caboco-205x300.jpg 205w, https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/caboco.jpg 663w\" sizes=\"auto, (max-width: 205px) 100vw, 205px\" \/><\/p>\n<p>A minha trajet\u00f3ria e pesquisa de retorno \u00e0 origem ind\u00edgena guiam o processo de produ\u00e7\u00e3o nas artes visuais. Cresci num ambiente urbano, em Curitiba-Paran\u00e1, com\u00a0 as hist\u00f3rias da minha m\u00e3e: uma Wapichana, da terra ind\u00edgena Canauanim, do munic\u00edpio de Cant\u00e1 &#8211; Boa Vista-Roraima. Lucilene saiu da aldeia aos 10 anos de idade, em 1968, e suas hist\u00f3rias, sementes, que a acompanham, em conjunto com uma visita que realizamos em 2001, onde conheci minha av\u00f3 e familiares ind\u00edgenas, tra\u00e7aram o meu destino como artista. Encontrei no desenho, no texto, no bordado,\u00a0 no som, na escuta e no caboco formas de dialogar com as atualidades ind\u00edgenas e minha origem.<\/p>\n<h2>Sustos Wapichana &#8211; Bananeira<\/h2>\n<p><a href=\"https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/inscricao-twydewa-mensagemdamaeterra.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-226 size-medium\" src=\"https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/inscricao-twydewa-mensagemdamaeterra-212x300.jpg\" alt=\"\" width=\"212\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/inscricao-twydewa-mensagemdamaeterra-212x300.jpg 212w, https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/inscricao-twydewa-mensagemdamaeterra-723x1024.jpg 723w, https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/inscricao-twydewa-mensagemdamaeterra.jpg 763w\" sizes=\"auto, (max-width: 212px) 100vw, 212px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>\u201cMinha m\u00e3e contou que quando era crian\u00e7a, l\u00e1 no in\u00edcio dos anos 60, ela cresceu entre os igarap\u00e9s, p\u00e9 no ch\u00e3o e bananeiras.<\/p>\n<p>Segunda ela, tinha muita banana mesmo. Ela conta que saiu da\u00a0 aldeia de Canauanim em 1968 e a vida se portou como um rio: escoou ela para Boa Vista, Manaus e foi a levando at\u00e9 ao Sul, em\u00a0 Curitiba. Morou em muitas casas, trabalhou como dom\u00e9stica, fez da costura a ferramenta de sobreviv\u00eancia, se dedicou aos estudos e\u00a0 foi adotada por uma fam\u00edlia do sul. Demorou 33 anos para juntar for\u00e7as, tempo e recursos para re-visitar sua m\u00e3e e familiares na aldeia. Na ocasi\u00e3o, levou eu e meu irm\u00e3o para apresentar os\u00a0 lugares que cresceu e nos introduzir aos nossos familiares. Lembro que ao identificar as bananeiras da aldeia, j\u00e1 coletadas e apresentadas no ch\u00e3o, ela logo se amontoou aos cachos, como se fosse sua casa, e pediu uma foto. Isso foi em 2001 e a cena me marcou. Passados outros 16 anos, uma nova visita. Agora em 2017,\u00a0 um susto.<\/p>\n<p>&#8211; Onde foram parar as bananas? Eu fiquei indignada. Tive que comprar banana no mercado pra levar pra aldeia.<\/p>\n<p>Conta-se que uma peste envenenou o solo e n\u00e3o tem muita banana crescendo por l\u00e1 n\u00e3o. Esse foi o primeiro susto que minha m\u00e3e relatou da sua \u00faltima visita a sua casa.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/inscricao-twydewa-mensagemdamaeterra2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-229 size-medium\" src=\"https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/inscricao-twydewa-mensagemdamaeterra2-212x300.jpg\" alt=\"\" width=\"212\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/inscricao-twydewa-mensagemdamaeterra2-212x300.jpg 212w, https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/inscricao-twydewa-mensagemdamaeterra2-725x1024.jpg 725w, https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/inscricao-twydewa-mensagemdamaeterra2.jpg 767w\" sizes=\"auto, (max-width: 212px) 100vw, 212px\" \/><\/a><\/p>\n<h2>Sustos Wapichana &#8211; Cacha\u00e7a<\/h2>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>\u201cTem muita gente doente nas aldeias. A cacha\u00e7a, os problemas da cidade, est\u00e3o fazendo parte de muitos cotidianos ind\u00edgenas. A garrafa de 51 se tornou al\u00e9m de \u201cuma boa ideia\u201d, hoje representa &#8216;uma boa ideia colonial&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Perd\u00e3o,<\/p>\n<p>Toma birita, lazarent\u00e3o. A oferenda t\u00e1 no teu corpo e teu santo mora no l\u00edquido dentro do vidro: avermelha os z\u00f3io e incha a cara.<\/p>\n<p>&#8211; Essa cacha\u00e7a n\u00e3o me pertence. Onde est\u00e1 cauim, caxiri, caracu?<\/p>\n<p>&#8211; Resiste a bebida, o contexto, re-existe o canto, re-exist\u00eancia, retomada, repatria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>51 \u00e9 uma boa ideia colonial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/wapichana.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-232\" src=\"https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/wapichana-220x300.jpg\" alt=\"\" width=\"256\" height=\"349\" srcset=\"https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/wapichana-220x300.jpg 220w, https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/wapichana-768x1047.jpg 768w, https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/wapichana-751x1024.jpg 751w, https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/wapichana.jpg 781w\" sizes=\"auto, (max-width: 256px) 100vw, 256px\" \/><\/a><\/p>\n<h2>Sustos Wapichana &#8211; F\u00e9<\/h2>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>\u201cOuvi sobre a f\u00e9 Wapichana, sobre a luta e demarca\u00e7\u00e3o de terras. Ouvi falar muito bem sobre Jo\u00eania Wapichana, a primeira advogada ind\u00edgena, que trabalhou na homologa\u00e7\u00e3o da terra ind\u00edgena Raposa Serra do Sol.<\/p>\n<p>Ouvi sobre a f\u00e9 na terra, a f\u00e9 no direita a terra. Sobre a forte influ\u00eancia mission\u00e1ria em Roraima. Sobre a for\u00e7a evang\u00e9lica e cat\u00f3lica. Sobre as cartilhas e sobre a tradu\u00e7\u00e3o da b\u00edblia para linguagem Wapichana feita por nosso tio Casimiro. Ouvi sobre a f\u00e9 no trabalho, na cidade, na \u2018civiliza\u00e7\u00e3o\u2019, f\u00e9 no agro, na ro\u00e7a e no gado. Ouvi sobre a f\u00e9 no caboco, nos cabocos que nasceram das aldeias-ro\u00e7as, f\u00e9 na agricultura e da m\u00e3o de obra explorada.<\/p>\n<p>Ouvi sobre a f\u00e9 Wapichana: sobre a fala, sobre a palavra e o sil\u00eancio. Ouvi muito sobre o sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Ouvi o sil\u00eancio.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/inscricao-twydewa-mensagemdamaeterra3.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-235\" src=\"https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/inscricao-twydewa-mensagemdamaeterra3-300x212.jpg\" alt=\"\" width=\"383\" height=\"271\" srcset=\"https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/inscricao-twydewa-mensagemdamaeterra3-300x212.jpg 300w, https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/inscricao-twydewa-mensagemdamaeterra3-768x543.jpg 768w, https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/inscricao-twydewa-mensagemdamaeterra3-1024x724.jpg 1024w, https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/inscricao-twydewa-mensagemdamaeterra3.jpg 1245w\" sizes=\"auto, (max-width: 383px) 100vw, 383px\" \/><\/a><\/p>\n<h2>Sustos Guarani-Mbya &#8211; Milho<\/h2>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>\u201cEm visita a aldeia Guarani Kuaray Guata Por\u00e3, de Guaraque\u00e7aba &#8211; Paran\u00e1, me chamou aten\u00e7\u00e3o a quest\u00e3o dos alimentos. &#8216;N\u00e3o posso plantar&#8217; um colega ind\u00edgena me disse. &#8216;A comida que chega aqui \u00e9 de cesta b\u00e1sica, mas o lixo ningu\u00e9m vem buscar. Antes plantava milho, batata, agora vem em lata, no saco\u2019 outro colega explicou.<\/p>\n<p>A noite, ouvi as palavras silenciosas do Xam\u00f5i na Opy\u2019i. Dormi de olho aberto e a defuma\u00e7\u00e3o no ouvido.<\/p>\n<p>Sa\u00ed da aldeia pensando nas latas de milho e na planta\u00e7\u00e3o. Pensei na resist\u00eancia Guarani, do que ouvi sobre este povo: pensei na peregrina\u00e7\u00e3o em oposto \u00e0 fixa\u00e7\u00e3o. Pensei muito nas latas de milho enferrujando na terra.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/semente.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-238\" src=\"https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/semente-300x224.jpg\" alt=\"\" width=\"354\" height=\"264\" srcset=\"https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/semente-300x224.jpg 300w, https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/semente-768x573.jpg 768w, https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/semente-1024x763.jpg 1024w, https:\/\/skasd.net\/wp-content\/uploads\/sites\/36\/2018\/10\/semente.jpg 1450w\" sizes=\"auto, (max-width: 354px) 100vw, 354px\" \/><\/a><\/p>\n<p>P\u00e9 no ch\u00e3o, p\u00e9 de ouvido.<\/p>\n<p>Enterra, semente desperta. Corpo \u00e9 terra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Povo Wapichana &#8211; Roraima A minha trajet\u00f3ria e pesquisa de retorno \u00e0 origem ind\u00edgena guiam o processo de produ\u00e7\u00e3o nas artes visuais. Cresci num ambiente urbano, em Curitiba-Paran\u00e1, com\u00a0 as hist\u00f3rias da minha m\u00e3e: uma Wapichana, da terra ind\u00edgena Canauanim, do munic\u00edpio de Cant\u00e1 &#8211; Boa Vista-Roraima. 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